Ontem (21) fui ver um dos melhores concertos do ano, construído a partir do trabalho acadêmico de conclusão da graduação que o compositor Erick de Almeida construiu na UFPB. Muitas canções do aro da resistência. Por que estão CAPINANDO O PORTO PARA CONSTRUIR UMA AURA DE CONCRETO?
A gestão pública municipal ainda não conseguiu explicar o desperdício de tempo e recurso, mas o concerto do Erick não desperdiçou acordes. Acordes harmônicos como poderiam ser os da Prefeitura com moradores do porto, e não esteve presente sem inclinação de cima pra baixo, goela adentro, tentando convencer não sei a quem que aquela obra sem os moradores que estiveram lá até hoje preservaria o meio ambiente. Conversa pra boi dormir.
Esse Porto, ou a ideia de preservação, ficou conservada na luta dos trabalhadores populares que fizeram o lugar existir, assim como Erick faz existir outras nuances e formatos harmônicos de um agrupamento de canções que perderam a estrada do tempo. Se perder do tempo não é ficar fora dele. Necessário construir uma nova noção de tempo e espaço como fez esse compositor na condição de professor respeitado no lugar, com sotaques e estímulos de educação que o poder público não garante nem garantirá existir depois da obra. Pro campo ficar bonito é necessário expulsar os jogadores? Antes que o capim vire queimada e desvele que existe uma ideia de abandono em plena construção, como é costume no Brasil.
Viver é conviver com o fogo, mas ali passa um Rio, como o compositor fala em suas letras. O Sanhauá poderá ser um extensão de condomínio para poucos, assim como se pretendeu no Trapiche do Jacaré.
Vi naquele concerto e naquelas crianças, e mais seus convidados, um grito incontrolável de resistência e bom senso que nos aproxima da ideia plena de liberdade, onde cidade é o coletivo de cidadãos, a contraponto da caneta do poder público que ateia fogo no capim, e assina embaixo um ardoroso poder de fazer coisas humanas e resistentes chegarem ao fim.
A impressão é de que Erick de Almeida está apenas começando, muitas lutas passarão ainda em baixo da ponte, do Sanhauá, entre outros Rios Ameaçados, com seus ribeirinhos, suas culturas, nossos caminhos.
*Carlos Antonio Bezerra da Silva (Totonho) - Compositor e Ativista
Edição: Cida Alves